Milhares voltam para casa na Espanha; França encara nova onda de calor
Dezenas de milhares de pessoas que abandonaram suas casas devido aos enormes incêndios florestais que devastaram Espanha e França começaram a retornar nesta quarta-feira (29), embora uma nova onda de calor e vento tenham reacendido as chamas nos arredores de Bordeaux.
Enquanto a Espanha suspendeu a ordem de evacuação em todos os municípios da província de Ávila, perto de Madri, as altas temperaturas retornaram a Gironde, no sudoeste da França, com a brisa marítima alimentando um incêndio florestal de intensidade incomum.
Desde 22 de julho, esses incêndios consumiram 42.000 hectares, após uma breve trégua durante a noite e um foco "estabilizado" pela manhã.
Após dias de angústia com as chamas, que consumiram mais de 120 mil hectares nos dois países, moradores e turistas desabrigados retornaram às suas cidades para encontrar, em alguns casos, suas casas destruídas e, em outros, o alívio de saber que não haviam perdido tudo.
"Não tenho dinheiro, não tenho documentos, não tenho casa", disse José Fernández à AFP ao se deparar com os móveis queimados, paredes parcialmente desabadas e montanhas de cinzas no que antes era sua casa em Pelayos de la Presa, perto de Madri.
"Tudo se foi", lamentou o aposentado de 74 anos, com os olhos marejados, enquanto caminhava pelos restos carbonizados de 35 anos de vida.
As autoridades suspenderam a ordem de evacuação, mas a cidade ainda estava parcialmente vazia. Quase 15 famílias perderam suas casas para o "monstro" do fogo, disse o prefeito Antonio Sin.
Desde terça-feira, cerca de 24 mil pessoas começaram a retornar para suas casas na região de Madri e na província de Ávila, epicentros dos incêndios, que estão entre os maiores já registrados na Espanha.
A situação parecia se estabilizar, mas as autoridades francesas e espanholas alertaram para condições desfavoráveis durante o dia, que ameaçavam alimentar novos focos de incêndio.
Esses incêndios são consequência do aumento da inflamabilidade das florestas e da vegetação devido à seca e às ondas de calor excepcionais que ocorrem desde junho, resultado das mudanças climáticas.
- "Cidade fantasma" -
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que as próximas 12 horas serão "decisivas" para conter os incêndios perto de Madri.
Em outra cidade afetada, Susana Barrul, uma dona de casa de 39 anos, não esconde a felicidade após retornar ao seu terreno, que permaneceu intacto, em Aldea del Fresno.
"Estamos felizes por estarmos de volta. Estamos tentando voltar à normalidade", disse ela à AFP, feliz por cozinhar e fazer café enquanto retoma sua rotina com os filhos, embora "a cidade ainda pareça uma cidade fantasma".
Na França, dezenas de milhares de pessoas também foram autorizadas a retornar para suas casas na região vinícola de Bordeaux, afetada pelo maior incêndio florestal no país desde 1949, com 42 mil hectares queimados e mais de 220 mil deslocados.
Uma densa fumaça voltou a cobrir a parte norte do balneário de Lanton, a oeste de Marcheprime, município no epicentro do incêndio, cerca de 30 km a oeste de Bordeaux, observou uma equipe da AFP.
Perto dali, as chamas contornam um campo que serve de aceiro, enquanto os bombeiros lutam contra faíscas e um vento intenso sob o calor escaldante para impedir que o fogo se alastre.
Após uma breve queda nas temperaturas, o calor retornou nesta quarta-feira, com o termômetro atingindo 35°C em Bordeaux ao meio-dia.
"É hoje que estamos com medo", disse à AFP Jérémy Presi, voluntário em um posto improvisado de distribuição de água ao norte de Marcheprime.
Mas ir embora não é uma opção. "Eles, os turistas, podem entrar em seus carros e ir embora. Esta é a nossa casa", disse em meio à densa fumaça que obscurecia a estrada.
Um grupo de operários da construção civil chegou do departamento vizinho de Charente-Maritime com um caminhão-tanque de 12 mil litros para ajudar os bombeiros a reabastecerem seus veículos.
"Pegamos todos os caminhos possíveis para chegar aqui", disseram à AFP.
"É preciso arregaçar as mangas", concordou Jean-Claude Bonnet, um voluntário de Bordeaux que se mobilizou para apoiar os bombeiros, que já têm 126 feridos em suas fileiras.
"Tenho 67 anos e nunca vi nada parecido. Estávamos dirigindo vindo para cá e eu desabei em lágrimas", contou. "O pior é ver os animais, queimados vivos à beira da estrada. É uma catástrofe ecológica."
U.Wikstrom--StDgbl